Suzane von Richthofen tinha um sobrenome que era uma asa. Bisneta do Barão Vermelho, o lendário ás da aviação alemã, ela cresceu cercada de privilégios.
Sete babás passaram por sua infância. Sete vezes ela se apegou. Sete vezes foi abandonada. Quando finalmente encontrou o amor, o aeromodelista Daniel Cravinhos, seus pais tentaram impedir o namoro. Ameaças de deserdação. Agressões. O plano de enviá-la para a Alemanha. Suzane não aceitou perder o que amava.
Na madrugada de 31 de outubro de 2002, os irmãos Cravinhos entraram na mansão dos Richthofen com barras de ferro. Vinte marteladas depois, o Brasil assistia, estarrecido, ao crime que se tornaria um dos mais chocados de sua história.
Suzane é um romance em versos que reconstrói essa tragédia em seis atos — e vai além. Investiga as raízes do mal no abandono infantil, na falta de autoconhecimento e na sombra que habita em todo ser humano. E termina com um final que o julgamento real não teve: a absolvição da ré.
Escrito com estrutura de tragédia grega, diálogos que alternam lirismo e brutalidade, e uma tese que dialoga com a psicologia junguiana, Suzane não é um livro para quem busca respostas fáceis. É para quem tem coragem de olhar para a própria sombra.
Música tema do livro - Chico Buarque
Música tema do livro - Phil Collins
No caso real, Suzane von Richthofen foi
condenada a 39 anos de prisão pela morte dos
pais, Manfred e Marisia, em 31 de outubro de
2002. A imprensa a chamou de “fria”, “manipuladora”,
“filha do diabo”. A opinião pública a condenou antes do
júri.
Esta tragédia não contesta o veredito.
Apenas pergunta: o que acontece na alma de uma
criança que, nos primeiros seis anos de vida, perde sete
mães, uma após outra, e aprende, muito cedo, que o amor
sempre vai embora?
A psicanálise chama isso de “trauma de abandono
repetido”. A literatura não nomeia, ela mostra. Os sete lutos
do Ato I não são invenção poética; são a tradução
dramática de um dado real: a menina Suzane foi criada por
uma sucessão de empregadas, demitidas ou desligadas,
enquanto os pais viajavam, trabalhavam ou simplesmente
não estavam.
O amor, para ela, tornou-se sinônimo de perda.
Quando o amor finalmente chegou - na forma de Daniel
Cravinhos, o rapaz que ela reconheceu como “aquele
menino” desde a infância -, ele veio com a força de uma
tábua de salvação para um náufrago. Ameaçar esse amor
era ameaçar a própria respiração.
E, como ela mesma diz no Ato III: “Era eles ou nós.”
Esta peça não defende o parricídio. Defende, como os
outros volumes da trilogia Feminino Divino, a
possibilidade de olhar para o monstro e perguntar: quem o
fabricou?
A absolvição ficcional de Suzane, assim como a de
Elize e a redenção espiritual de Flordelis, não é um ato
jurídico. É um ato de misericórdia artística. A pergunta que
a justiça não pode responder, a literatura pode ao menos
formular.
O leitor que busca um documentário encontrará outra coisa; aquele que busca entender, não concordar, mas compreender, terá, por fim, valor na sua procura.
"Suzane talvez seja a melhor obra do autor, não pela precisão técnica dos versos metrificados, mas pela coragem de sustentar um ponto de vista que poucos ousariam defender."
"Suzane dói ao ler. E é exatamente por isso que precisa ser lido."